A vida consegue ser bastante imprevisível pelas reviravoltas que dá - custa admitir mas às vezes os maiores clichés à face da terra são também as maiores verdades do universo e esta é uma delas.
O meu signo confirma que as reviravoltas e a mudança em geral não são as minhas melhores amigas e que aprecio a estabilidade, mas também diz que gosto de fazer as coisas com calma e ser paciente e não podia estar mais longe da verdade (sou impaciente, impulsiva e não sou boa no que toca a esperar) por isso vamos ignorar por momentos estas tretas cósmicas e astrológicas.
Nunca fui muito receptiva a mudanças, é um facto, e luto há mais ou menos 30 anos contra esta tendência. Até agora posso dizer que já consegui evoluir do estado de ter um ataque de pânico quando confrontada com uma mudança para o estado de dar o benefício da dúvida à mudança porque mudar nem sempre significa que seja para pior e porque a verdade é que eu quero que algumas coisas mudem. E ainda mais do que ter medo da mudança, tenho pavor da estagnação.
Isto tudo para dizer que, apesar de tudo, até já consigo rir da mudança de vez em quando.
Andei algum tempo a tentar combinar um café com alguém que conheci há alguns anos atrás mas de quem já não me lembrava o que, de certo modo, é fantástico porque é como se de repente se tivesse uma segunda oportunidade com alguém sem o sabor da segunda oportunidade. Para todos os efeitos estava a conhecê-lo pela primeira vez.
Mensagem para cá e para lá, conjugação de agendas (aparentemente demasiado complicadas), alguma espera envolvida e passaram dois meses sem que nada acontecesse. A maior parte das pessoas se calhar entretanto já tinha desistido de combinar o que quer que seja com alguém que não conhece mas para além de avessa à mudança e impaciente, sou também teimosa (aqui a treta cósmica da astrologia já é algo conveniente porque se há signo teimoso é o meu).
Para além disto não me perguntem porquê mas a curiosidade era alguma por isso deixei que o tempo passasse, predispus-me a assumir o papel da pessoa que subtilmente insiste e estivemos até muito perto de nos encontrarmos mas... não chegou a acontecer.
Estou numa altura um tanto ou quanto complicada da minha vida em que preciso de “descomplicar” e de coisas simples por isso, eventualmente, a necessidade de simplicidade e a impaciência sobrepuseram-se à teimosia e à curiosidade e fiz-lhe uma pergunta de resposta fechada: encontro? Sim ou não.
Não foi assim tão brusco e sei que estiquei a corda mas já me estava nas tintas. Ou ela rebentava na minha cara ou, a continuar por onde íamos, quem roía a corda era eu.
A resposta foi rápida (ponto extra para ele), curta (outro ponto extra) e sincera (mais um ponto extra!): o timing não era o melhor, havia algo que atrapalhava por isso era melhor não.
Apesar de todos os pontos extra e de ter conseguido parte do que queria (“descomplicar”), claro que a seguir veio a frustração (dois meses a tentar combinar qualquer coisa para não dar em nada) e as dúvidas (tipicamente femininas).
Hmmm, o timing não era o melhor... Porquê? Era uma coisa temporária ou era a forma graciosa de dar a entender que cheguei tarde ou simplesmente não estava para ali virado? E algo atrapalhava... “Algo” porque era uma coisa ou “algo” era código para “alguém”? E se fosse um alguém era alguém presente com quem ele está, alguém passado de quem se tenta afastar ou alguém que ele queria que fosse futuro?
E não podia ter dito dois meses antes que o timing não era o melhor? Custava-me a acreditar que quaisquer que fossem realmente os motivos, não existissem dois meses antes.
Bem... facto: não ia haver café, encontro, nada.
Estranhamente sentia-me frustrada e um bocadinho desiludida mas não conseguia estar furiosa com ele, mesmo, o que era de alguma maneira inédito em mim. Ainda assim aceitei a situação e nos dias seguintes fiz o luto do encontro que não aconteceu – frase apenas compreensível por quem tem cromossoma X. Até ontem, em que recebi uma mensagem dele, com centenas de outros destinatários, que anunciava que ia trabalhar para fora de Portugal. Durante um ano. Não interessa para onde, não vamos perder-nos nos pormenores.
E, subitamente, eu era a Amelie Poulain quando, no filme, descobre quem era o homem misterioso do photomaton (quem não viu o filme largue imediatamente o computador e vá vê-lo, é leitura obrigatória para compreender o que escrevo).
O timing não era, de todo, o melhor (não estava interessada em conhecer alguém que no minuto a seguir ia estar um ano fora, por mais que haja internet, telefones e todas essas modernices) e podia ser este o tal “algo” (sim, algo e não alguém) que atrapalhava.
Os motivos dele até podem não ter sido estes, o facto de ir para fora podia não ser minimamente impeditivo para ele, o “algo” podia ser mesmo alguém (passado, presente, futuro) mas isso agora não era importante.
Pensando em mim, sendo egoísta e seguindo a máxima do “descomplicar”, o timing não era o ideal para mim. Ponto final.
E, de repente, o luto acabou e consegui rir um bocadinho da reviravolta.
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