segunda-feira, 17 de outubro de 2011

We’ll always have Lux

Já fui mais saudosista, já vivi mais de memórias, até que descobri que uma das coisas mais terapêuticas da vida é andar e não perder muito tempo a olhar para trás.

Com o passar dos anos (e a idade meus amigos... a idade) aprendi a dar ao passado o seu justo valor enquanto parte do caminho e base fundadora do presente, sem cair na asneira de ficar agarrada a ele (ou às coisas boas dele) e deixar que o presente e futuro me passassem ao lado.

Honestamente, nos dias que correm, estou mais preocupada com o presente  e olho mais para o futuro do que penso no passado mas confesso que na semana passada tive um momento de nostalgia, dos tais que são raros.

Fui ao 13º aniversário do Lux (o que já de si é uma ocasião propícia a uma viagem pela memória) e calhou ser exactamente na mesma data de uma noite que, há alguns anos e no mesmo sítio, mudou a minha vida.

Não vale a pena perder tempo e caracteres a explicar o que aconteceu exactamente nessa noite porque foi daqueles momentos que nos dizem tanto que pouco conseguimos dizer deles mas nessa noite descobri alguém que dali em diante me fez ver muita coisa com um par de olhos novo e que ao fim deste tempo todo continua a ser uma das pessoas mais importantes para mim. Mas fiquemos por aqui que isto já começa a resvalar para a lamechice.

Pormenores à parte, o que é facto é que dei por mim a pensar na quantidade de coisas da minha vida que passaram pelo Lux.

Não vou lá há 13 anos mas, seguramente, 11 anos da minha história são partilhados com a daquele sítio e não, não me faz sentir nada velha, pelo contrário.

Ali ri, discuti, fiz as pazes, fiz amigos para a vida, amigos por uma noite, ouvi da melhor música que já conheci, assisti aos piores concertos que vi até hoje, apaixonei-me, andei nas nuvens, deliciei-me com a quantidade de homens que afinal ficam incrivelmente atraentes de saia nas festas das saias, fiz figuras embaraçosas, perdi a razão, perdi o tino, ganhei juízo, vesti-me de bailarina de can-can para a festa dos fetiches, chorei baba e ranho, desiludi-me, inspirei-me na rainha de copas para a festa da Alice, senti a adrenalina a correr nas veias, caí no quinto dos infernos,  fiquei deprimida, comi das melhores tostas mistas de Lisboa às 3 da manhã, bebi, diverti-me a ver os outros beberem, apaixonei-me outra vez, presenciei amanheceres memoráveis e pores do sol mágicos, senti-me pequenina e insegura, senti-me uma rainha e dancei. Dancei como se não houvesse amanhã e como se a minha vida dependesse disso.

Se se  fizer o exercício de multiplicar isto que acabei de referir por todos os que já por ali passaram, e que de alguma maneira se identificam com o que disse, o resultado é estonteante.

Não há muitos sítios assim, tenho a certeza. E ainda bem.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

I think I’m paranoid

Ainda mal me tinha caído a ficha de que o Paulo ia de facto para fora do país quando soube que dali a menos de uma semana já cá não estaria.
 
Durante os dias seguintes iria estar a viver como se não houvesse amanhã ou como se estivesse de partida para a China, indefinidamente. Combinava pequenos almoços, almoços, lanches, jantares, copos, encontros com este e aquela, ida à festa da Time Out, ao futebol, tudo o que fosse possível encaixar nas 24h do dia.

E sabia isto tudo graças ao Facebook que, qual espião ultra-eficiente, me punha a par de tudo, o que queria saber e até o que não fazia mesmo questão. De qualquer modo, neste caso até havia um aspecto positivo, poder confirmar que nada da minha agenda coincidia com a dele e assim poder ter a certeza de que não teria que sequer enfrentar a possibilidade de dar de caras com ele numa situação qualquer – o que não seria o fim do mundo mas era desnecessário.

Posto isto, na minha cabeça era só uma questão de os poucos dias que faltavam para a viagem passarem, ele partir e o assunto ficar arrumado de vez.

Sexta-feira, quase final de tarde, preparava-me para nessa noite ir ao teatro com duas amigas, girl’s night mas calma, nada de loucuras, quando o meu telefone tocou. Do outro a  Cláudia, uma das girls incluídas no programa, dizia que era a maior e que tinha conseguido arranjar convites para a festa de aniversário da Time Out por isso do teatro seguíamos para  lá. Bastou uma conta rápida de cabeça para me lembrar que havia alguém que iria a essa festa e que haveria a possibilidade de nos cruzarmos.

Por um lado não me apetecia vê-lo, era mais fácil deixar o caso como estava. Por outro, não ia deixar de ir por causa disso, até porque queria ir.

Vou saltar o relato do drama que foi mudar de planos e em vez de ir apenas a uma peça de teatro com as amigas ir ainda a uma festa daquelas mas,
abananada com a notícia inesperada, lá me reorganizei, disse adeus à noite calma e tranquila e fui.

Assim que pus um pé no jardim do palacete onde a festa aconteceu a minha faceta mais paranoica veio imediatamente ao cimo e olhei em volta para fazer o reconhecimento do terreno e quem por ali estava naquele momento.

O espaço era magnífico mas andar a circular pelas inúmeras divisões de uma casa, de sala em sala, estava a tornar-se um teste aos nervos. Ficava por milésimos de segundo sem respirar cada vez que via alguém parecido com ele (e como era possível haver tantos homens parecidos?!).

Cada vez mais pensava no que faria se desse de caras com ele, continuava a andar, falava-lhe, se falasse o que dizia (digamos que um “Olá, tudo bem?” não é a escolha adequada para quem não se falava há alguns anos e tinha trocado aquelas mensagens)…

Ao fim do primeiro copo já estava decidida que falaria se a ocasião se proporcionasse. Um pouco depois e era certo para mim que falaria, pois claro, e à medida que o tempo foi passando aconteceu algo bastante bom, pura e simplesmente relaxei e diverti-me.

Algumas horas, uns quantos copos e muitas gargalhadas depois decidimos dar a noite por encerrada e a sensação que tive enquanto passava pelo portão do palecete era de alívio à mistura com satisfação.

Ironicamente encontrei lá uma pessoa do passado e que em tempos muito idos teria provocado uma reacção paranoica  semelhante se tivesse a probabilidade de o encontrar numa situação daquelas mas com quem, com o passar dos anos e muita água corrida, fui ficando bastante confortável no papel de apenas amiga e a quem falei sem problemas, feliz por o ver ali.

De resto tudo correu sem sobressaltos. Dali a dois ou três dias ele estaria de partida (eu até já lhe tinha desejado boa sorte e boa viagem) e as coisas iam ficar calmamente resolvidas. Sem ressentimentos.
 
Teria sido melhor se eu não tivesse cedido à paranoia, mas que fazer? Foi mais forte que eu.


(Nota: todos os nomes referidos são fictícios, ainda que as pessoas sejam reais.)

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Changes

A vida consegue ser bastante imprevisível pelas reviravoltas que dá - custa admitir mas às vezes os maiores clichés à face da terra são também as maiores verdades do universo e esta é uma delas.

O meu signo confirma que as reviravoltas e a mudança em geral não são as minhas melhores amigas e que aprecio a estabilidade, mas também diz que gosto de fazer as coisas com calma e ser paciente e não podia estar mais longe da verdade (sou impaciente, impulsiva e não sou boa no que toca a esperar) por isso vamos ignorar por momentos estas tretas cósmicas e astrológicas. 

Nunca fui muito receptiva a mudanças, é um facto, e luto há mais ou menos 30 anos contra esta tendência. Até agora posso dizer que já consegui evoluir do estado de ter um ataque de pânico quando confrontada com uma mudança para o estado de dar o benefício da dúvida à mudança porque mudar nem sempre significa que seja para pior e porque a verdade é que eu quero que algumas coisas mudem. E ainda mais do que ter medo da mudança, tenho pavor da estagnação.

Isto tudo para dizer que, apesar de tudo, até já consigo rir da mudança de vez em quando.


Andei algum tempo a tentar combinar um café com alguém que conheci há alguns anos atrás mas de quem já não me lembrava o que, de certo modo, é fantástico porque é como se de repente se tivesse uma segunda oportunidade com alguém sem o sabor da segunda oportunidade. Para todos os efeitos estava a conhecê-lo pela primeira vez.


Mensagem para cá e para lá, conjugação de agendas (aparentemente demasiado complicadas), alguma espera envolvida e passaram dois meses sem que nada acontecesse. A maior parte das pessoas se calhar entretanto já tinha desistido de combinar o que quer que seja com alguém que não conhece mas para além de avessa à mudança e impaciente, sou também teimosa (aqui a treta cósmica da astrologia já é algo conveniente porque se há signo teimoso é o meu).


Para além disto não me perguntem porquê mas a curiosidade era alguma por isso deixei que o tempo passasse, predispus-me a assumir o papel da pessoa que subtilmente insiste e estivemos até muito perto de nos encontrarmos mas... não chegou a acontecer.


Estou numa altura um tanto ou quanto complicada da minha vida em que preciso de “descomplicar” e de coisas simples por isso, eventualmente, a necessidade de simplicidade e a impaciência sobrepuseram-se à teimosia e à curiosidade e fiz-lhe uma pergunta de resposta fechada: encontro? Sim ou não.


Não foi assim tão brusco e sei que estiquei a corda mas já me estava nas tintas. Ou ela rebentava na minha cara ou, a continuar por onde íamos, quem roía a corda era eu.


A resposta foi rápida (ponto extra para ele), curta (outro ponto extra) e sincera (mais um ponto extra!): o timing não era o melhor, havia algo que atrapalhava por isso era melhor não.


Apesar de todos os pontos extra e de ter conseguido parte do que queria (“descomplicar”), claro que a seguir veio a frustração (dois meses a tentar combinar qualquer coisa para não dar em nada) e as dúvidas (tipicamente femininas). 


Hmmm, o timing não era o melhor... Porquê? Era uma coisa temporária ou era a forma graciosa de dar a entender que cheguei tarde ou simplesmente não estava para ali virado? E algo atrapalhava... “Algo” porque era uma coisa ou “algo” era código para “alguém”? E se fosse um alguém era alguém presente com quem ele está, alguém passado de quem se tenta afastar ou alguém que ele queria que fosse futuro?


E não podia ter dito dois meses antes que o timing não era o melhor? Custava-me a acreditar que quaisquer que fossem realmente os motivos, não existissem dois meses antes.


Bem... facto: não ia haver café, encontro, nada.


Estranhamente sentia-me frustrada e um bocadinho desiludida mas não conseguia estar furiosa com ele, mesmo, o que era de alguma maneira inédito em mim. Ainda assim aceitei a situação e nos dias seguintes fiz o luto do encontro que não aconteceu – frase apenas compreensível por quem tem cromossoma X. Até ontem, em que recebi uma mensagem dele, com centenas de outros destinatários, que anunciava que ia trabalhar para fora de Portugal. Durante um ano. Não interessa para onde, não vamos perder-nos nos pormenores.


E, subitamente, eu era a Amelie Poulain quando, no filme, descobre quem era o homem misterioso do photomaton (quem não viu o filme largue imediatamente o computador e vá vê-lo, é leitura obrigatória para compreender o que escrevo).


O timing não era, de todo, o melhor (não estava interessada em conhecer alguém que no minuto a seguir ia estar um ano fora, por mais que haja internet, telefones e todas essas modernices) e podia ser este o tal “algo” (sim, algo e não alguém) que atrapalhava.


Os motivos dele até podem não ter sido estes, o facto de ir para fora podia não ser minimamente impeditivo para ele, o “algo” podia ser mesmo alguém (passado, presente, futuro) mas isso agora não era importante.


Pensando em mim, sendo egoísta e seguindo a máxima do “descomplicar”, o timing não era o ideal para mim. Ponto final.


E, de repente, o luto acabou e consegui rir um bocadinho da reviravolta.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

Primeiro passo

Sem querer alongar-me com grandes introduções, queria apenas dar o primeiro passo com um pequeno aviso à navegação, chamemos-lhe assim.

Desde que sei escrever que me lembro de escrever para mim e nunca senti necessidade de partilhar o que escrevia com o resto do mundo (excepto, claro, quando se tratava de contexto que não pessoal). 

Por este motivo sobrevivi com facilidade à febre dos blogs sem que me afectasse e à tendência que na altura se instalou de toda a gente ter algo para dizer e querer, forçosamente, que o resto das pessoas lessem o que tinham para dizer, por mais banal ou inútil que fosse.

Mas com o passar dos anos fui também sendo confrontada com situações em que, repetidamente, pensei “isto parece saído de um filme” e aos poucos fui começando a achar que talvez fosse um desperdício não anotar essas situações.

Para além disto, recusava-me a acreditar ser a única a quem isto acontecia.

Resumindo: motivada por algumas pessoas na minha vida que pareciam retirar prazer de algumas das minhas histórias e na esperança de encontrar alguém que se identifique com o que eu tenho para dizer e que, como eu, já pensou em vender os direitos da sua vida a uma produtora de televisão americana, decidi criar este espaço.

Não esperem histórias mirabolescas a toda a hora e situações surreais constantes, porque apesar de o que eu tenho para partilhar ter a sua quota de peculiar, não deixam de ser coisas reais e, como todas as coisas reais, às vezes têm tanto de peculiar como de aborrecido.

Espero que, pelo menos, o que aqui for deixando entretenha quem estiver a ler. Se isso tornar o dia de que estiver desse lado um pouco mais ligeiro já me dou por feliz.